"O suicídio e ponto e vírgula"

Um dos maiores tabus e obstáculos que encontro sempre que vou falar do projeto é a questão do suicídio. Normalmente, quando quero falar de algo que vai além do bullying, “sou muito nova”, “não tenho formação completa”, “os alunos são muito novos”, “eu não sou especialista” e que “tenho uma carinha de bebê”. A impressão que tenho é que sempre vai haver uma desculpa para que assuntos como suicídio, automutilação, pressão com o corpo, gênero, entre outros, possam ser discutidos com os jovens.

E a outra impressão que tenho é que se sou muito nova e tenho carinha de bebê para falar de vários assuntos, me pergunto: porque me deixam falar sobre bullying?! Seria como se o bullying não tivesse tanta importância na vida das pessoas. Algo para se refletir, quem sabe em um próximo post.

Normalmente, na reunião com o responsável do colégio, entrego um roteiro em tópicos sobre os assuntos abordados e há um, em especial, chamado: “prevenção de suicídio”, esse, normalmente é descartado na hora. As pessoas não me dão nem a oportunidade de explicar que a maneira como abordo o tema é leve, através da literatura, através de fontes confiáveis como CVV. É uma questão de prevenção e não questão de incentivar. Está na hora de se quebrar esse tabu de que não devemos falar sobre o suicídio, pois ele existe e está crescendo cada vez mais em nosso país.

O Brasil ficou em 8º lugar na lista de países em que mais se comentem suicídio, 26 brasileiros por dia morrem tirando sua própria vida, em jovens, a taxa cresceu 30%. Estou dando números, fatos, que vocês podem encontrar no próprio site do Centro de Valorização à Vida, no ranking da Organização Mundial da Saúde. Nada disso está sendo tirado da minha cabeça. O suicídio existe, é uma questão de saúde pública e é jogado para do tapete todos os dias.

Há uma grande diferença entre políticas de prevenção e incitar o suicídio. Para prevenir, é necessário falar, e quando dizemos falar, queremos dizer ir aos lugares e mostrar que existe outras possibilidades, que é preciso e necessário pedir ajuda, é mostrar os lugares onde possam encontrar atendimento adequado, é mostrar que existem profissionais que irão ajudá-lo. É mostrar que a pessoa pode sair da situação em que se encontra sem precisar tirar a própria vida. É trabalhar não só a essa pessoa, mas as que estão ao seu lado também. É quebrar mitos sobre o assunto, é falar sobre identificação, é modificar o olhar das pessoas. E isso só se consegue conversando, explicando, mostrando, falando.

Concordamos que os suicídios não precisam notificados, mas toda vez que pretendo conversar sobre o tema, que é tão tabu, mas tão tabu que as pessoas afirmam que “não se pode falar para não estimular”.

Nós não queremos que saia no jornal cada vez que um cidadão se suicida. Nós queremos falar sobre como evitar que isso aconteça, como salvar uma vida, uma não, várias, porque são 26 por dia. Como salvar uma família, como salvar amigos, como salvar também as pessoas que ficam e sofrem por quem perderam. 

É curioso como não se pode falar sobre assuntos, como o primeiro argumento para nos impedir de falar é este de “não estimular”. Porém, e todas as vezes que a mídia notifica uma morte causada por ódio?! E todas as vezes que a mídia notifica várias e várias vezes o mesmo crime de diferentes maneiras?! Quando passam nas novelas crimes bárbaros, de ódio?! Por que se pode incitar o ódio e não se pode falar sobre a prevenção do suicídio?!

Essa matéria surgiu quando li uma matéria sobre as tatuagens ponto e vírgula e seu maravilhoso significado, assim como o Projeto Borboleta (mais voltado para automutilação), é uma tatuagem que é um símbolo para o suporte contra depressão, tendências suicidas, automutilação, e principalmente, é uma tatuagem contra o tabu enfrentado várias vezes pelas doenças mentais. Tabus que enfrentamos todos os dias, e que, quando estamos nessa luta, aprendemos que vai além de um ponto final, e sim, é um ponto e vírgula.

Acredito que a nossa luta para levar essas questões adiante, para um país em que se valorize mais a vida humana, é como o Projeto Semicolon, que para cada ponto que a gente recebe, a gente coloca uma vírgula embaixo e continua lutando. Porque a nossa vida e a nossa qualidade de vida, vale muito! É um ponto e vírgula. 


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